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Antígona, novamente

Há exatamente dois anos, estudando Estética, o professor fazia com que minha turma lesse Antígona, a tragédia Grega. Uma leitura conjunta do tipo jogral. Mas, eu não precisava ler Antígona para saber que estava vivendo uma tragédia pessoal. Vivia o sentimento de que toda a minha vida estava fatidicamente destinada a precipitar-se num abismo, que então se abria à minha frente. Aprendi muito bem o que é uma tragédia e o que é cair em abismo. Justamente por ter vivenciado tão plenamente é que a situação acadêmica agora se repete. O mesmo professor renovou a sua proposta e, novamente, estou em situação de ler Antígona, a tragédia, com os colegas estudantes. Nesse meio tempo, o que eu ainda não aprendi é sobreviver a tragédias. Ou melhor, aprendi que a gente não sobrevive. A Helena que lia Antígona há dois anos morreu. Não é a mesma que lê Antígona hoje. E esse novo ser que surgiu, essa nova configuração que eu ainda não conheço, ainda não sabe bem como existir neste tempo confuso. Não sabe...

Milagre

Você acredita em amor à primeira vista ? Não conheço um amor que não me tenha nascido à primeira vista, em um tropeçar em alguém e sentir que ali, diante de mim, está um ser diferenciado. Não importa se é alto ou baixo, magro ou gordo, bonito ou feio, pobre ou rico. O que conta é aquela identificação inexplicável, repentina, surpreendente e paralisante. Um comunicar-se sem palavras, um sentimento profundo de falar uma língua comum que flui de uma forma que a gente não entende e nem precisa entender, pois não é para entende apenas viver. É como se todo o universo houvesse conspirado para que aquela pessoa se revelasse naquele exato momento e o mundo mudasse de cor pelo encontro de dois seres complementares. Daí duas crianças se olham nos olhos maravilhadas, como se vissem o mar pela primeira vez e se dessem conta de que podem navegar porque a distância lhes pertence. O mundo fica imenso, mas todo concentrado ali, naquele encontro. E eu havia me esquecido de como isso é lindo, de como mi...

Superfícies

Dia desses acordei de manhã, preparei meu café e fui tomá-lo no quintal, aproveitando o solzinho que despontava. Distraidamente, olhei pro lado e vi pequenas ramagens que cresciam entre o piso e o muro. Pareciam arvorezinha em miniatura... Num flash me veio a imagem de pessoinhas andando entre aquelas coisinhas verdes e por instantes me vi transportada para uma época remota da minha vida, época em que eu desenhava pessoinhas no papel, as coloria, recortava e criava para elas pequenas historinhas, pequenos universos... Eu as colocava dentro de pequenas casinhas, construídas por mim com pequenos pedaços de tijolos, madeiras e outros materiais. Ali aquelas pessoinhas “viviam”. Eu era o Deus que as fazia existir e ordenava seus dias. Na minha cabecinha infantil a vida delas era linda e perfeita. Eu devia ter uns 5, 6 anos, talvez menos... Naquela manhã, ao retornar do meu déjà vu me surgiu a questão: será que Deus também faz isso com a gente? Nos faz existir, nos dá um mundo de acordo com...

Contato, o Filme

“A pergunta que eu me faço é: somos mais felizes como raça humana, o mundo é fundamentalmente um lugar melhor por causa da ciência e da tecnologia? Nós compramos coisas de casa, surfamos na web, mas ao mesmo tempo nos sentimos mais vazios, mais sozinhos e mais isolados uns dos outros do que em qualquer outra época da humanidade. Estamos nos tornando uma sociedade sintetizada...”

Qual é o problema de ser introvertido?

 O texto é da Carmen Guerreiro . Reproduzo aqui porque me vi nele tão perfeitamente que é impossível ignorar. Tirando a tal invejinha dos extrovertidos, coisa que superei na adolescência, sou eu... Hoje introvertida sem culpa. Mais de uma vez, eu digitava quietamente no meu computador no trabalho (para os que não sabem, sou jornalista e trabalho em uma redação, em uma editora de revistas, e redações em geral mantêm um nível razoável de barulho e conversa) quando o diretor de redação comentou com o meu chefe, na minha frente: “Mas ela não fala, não?” ou “Que silêncio nesse canto aqui, hein?” Eu fico sem graça. Me sinto na obrigação de dar uma justificativa para o meu comportamento recluso, ainda que o comentário seja uma brincadeira. Eu poderia ser uma daquelas pessoas que contam as piadas que todos dão risada, que fazem um comentário sagaz sobre a conversa geral, mas não sou. Mas não é culpa do diretor de redação. Ele é uma pessoa bacana que apenas chamou atenção para uma opinião ...

Emily e Jane

Não raro filmes antigos soam ingênuos, bobinhos. Este pode soar até meio fútil. Mas, é mera aparência... Ele fala de uma época em que os preconceitos contra as mulheres eram muito evidentes e até amparados pela lei, ou pela ausência da lei. A mulher que não contasse com a "generosidade" do pai, do irmão ou de um "bom" marido encontrava sérias dificuldades para sobreviver. Além de "Razão e Sensibilidade", outro exemplo é "Orgulho e Preconceito", ambos criações de Jane Austen que foram levadas ao cinema em até mais de uma versão. Outro que revi recentemente é "O Morro dos Ventos Uivantes" de Emily Brontë.  Este não tem a leveza dos dois anteriores. É angustiante, trágico, visceral! Na verdade, o cinema não carece de histórias de amores trágicos causados por preconceitos de gênero, de raça, de classe...  Elas praticamente nasceram com o próprio cinema. O resto da minha vida não bastaria para fazer um levantamento de títulos e comentá-los. ...

Especismo

 A palavra "especismo" surgiu na minha vida em 2010. Naquele ano, estudando Ética, tomei contato com o pensamento de Peter Singer e Mary Midgley, filósofos que refletem sobre questões relacionadas aos direitos dos animais. "Especismo" se refere à maneira preconceituosa como os humanos se comportam diante de outras espécies. O fundamento principal dessa linha de pensamento é relativamente simples: ao longo da história da humanidade os animais foram entendidos como inferiores aos humanos e sujeitos às suas necessidades e caprichos, tendência esta que foi acentuada pelas religiões. A bíblia católica, por exemplo, fala da criação de um paraíso onde todas as coisas estariam à disposição dos humanos, inclusive os animais, seus companheiros e "enfeites" do ambiente. O resultado disso é que, de modo geral,  os humanos ainda tomam os animais, os diferentes, como inferiores, cuja dor e sofrimento não são tão importantes como a sentida pelos humanos. Daí que ninguém ...

Ciência para quê? Produtividade para quem?

Para compreender o mundo atual, é preciso sobrevoar as pesquisas e os planos para o futuro financiados pelas grandes corporações e desenvolvidos pela ciência de ponta. É preciso olhar para a NASA, para a indústria armamentista, para o CERN,  para os grandes centros de pesquisa nacionais e internacionais... Pessoalmente, não sou contra à evolução científica. Claro que não! Sou contra é que poucos decidam os destinos da humanidade, de acordo com seus próprios interesses. Quando a filosofia faz críticas à ciência se tem em mente um tipo de conhecimento técnico que foca apenas o próprio horizonte, perdendo de vista a dimensão da totalidade. Portanto, q ue o povo tenha compreensão dos processos científicos e esteja em condições de tomar decisões é urgente! Abaixo trechos da Revista Fapesp, de Maio de 2008, pp 75-77. Antiga, porém atual. Os grifos são meus.   Um pouco antes do século passado se encerrar, em 1999, grupos de pesquisadores começaram q se reunir nos Estados Unidos par...

O Jogo

Relembrando o passado é que eu entendo também o meu presente, que se juntam as peças desordenadas. Nos últimos 20 anos muito mudou e nada mudou... Minha religiosidade não é mais tão frágil e meus ouvidos não são mais tão sensíveis. Não me assustam mais cruzes de ponta cabeça ou guitarras serra elétrica. A ingenuidade desapareceu há muito tempo. Ganhou espaço a angústia de saber que aquilo que mais se preza sempre acaba submetido a um sistema econômico que a tudo perverte e que as pessoas, de um jeito ou de outro, colaboram, inevitavelmente. A vontade de estar num mundo diferente, de viver uma realidade diferente é a mesma. Mas, o que está aí é um jogo viciado. E hoje, ainda, nada me importa mais do que encontrar uma saída que leve para fora desse círculo vicioso, longe das interpretações e ações pré-estabelecidas. Não foi à toa que Teoria Crítica me arrastou a estudar Filosofia. Foi a força de determinação do que era mais essencial em mim. A vida familiar da infância, a adolescência, ...

Black Metal

Não raro, as “melhores” famílias têm suas ovelhas negras. Fosse o Heavy Metal uma família respeitável, eu diria que o Black Metal é o filho problema. Criança esta que eu rejeitei no nascimento. Me lembro das primeiras vezes que vi Venom, a banda precursora do estilo, em vídeo, na Woodstock. Foi rejeição instantânea, em parte por preconceitos meus, de fundo religioso. Fã de Heavy Metal, eu não me achava exatamente uma católica radical. Porém, a agressão visual e sonora do Venom não combinava com uma formação cristã, por mais remota que fosse. Além da ostentação de símbolos pagãos, a defesa do satanismo e da violência, a musicalidade me era incompreensível. Vocais berrados, rasgados ou guturais, baterias à velocidade da luz, guitarras com timbre de serra elétrica... Me parecia uma coisa mórbida e de extremo mal gosto. Seria cômico se não me parecesse tão trágico. Não quis saber daquilo. Me interessava uma sonoridade mais tradicional ou com pegada progressiva, ou hard, ou no máximo o powe...

Woodstock Discos os Anos Dourados

  O ano era 1983. Há semanas estou tentando me lembrar de como cheguei lá pela primeira vez. Foi por acaso, por indicação de alguém? Não me lembro... Era uma loja de discos muito especial, que ficava numa galeria da Rua José Bonifácio, esquina com o Largo São Francisco. Eu a encontrei poucos dias antes de sua mudança para a Rua Dr. Falcão, esquina com o Largo do Anhangabaú, onde está até hoje, embora sem um milésimo da “magia” e da importância que teve na década de 80. Foi naquele primeiro dia, numa manhã de sábado, que começou uma aventura que marcaria a minha personalidade para sempre. No início dos anos 80 a indústria cultural era sacudida por um movimento que começou na Inglaterra e se espalhou pelo mundo, a New Wave of British Heavy Metal. Surgido em fins da década de 60, com o Black Sabbath, o estilo de rock pesado com guitarras distorcidas, ganhava um novo fôlego com bandas inglesas como Saxon, Samson, Iron Maiden e Def Leppard. Na época, um Brasil recém saído do regime mili...

Until The Light Take Us

Documentário alemão sobre o movimento norueguês de Black Metal. Melhor coisa que eu assisti em muito, muito tempo! Maravilhoso!

O Lado Bom da Vida, o Filme

  Após um colapso nervoso, Pat  é internado em uma clínica para doentes mentais. Ao retorna à casa de seus país, sob condição de continuar visitando um terapeuta periodicamente e de não abandonar os medicamentos, prepara-se para retomar o antigo trabalho e reconquistar sua esposa, quando conhece Tiffany, uma problemática viúva. O filme tem tanto de comédia romântica quanto de drama. A história é boa, os atores estão bem, especialmente Jennifer Lawrence, a viúva que parece sempre no limite do autocontrole. Mas, tem alguma coisa que não funciona... Me parece que a direção de David O. Russel, oscilando entre estilos, não conseguiu atingir o melhor nem da comédia romântica nem do drama. De qualquer forma, não é de todo um desperdício de tempo. Tem bons momentos, rende umas risadas num fim de noite e é sempre bom rever Robert De Niro, desta feita como pai de Pat.