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Mostrando postagens com o rótulo Livros e Letras

Românticos

Uma hipótese interessante: “Evidentemente, essa coisa chamada romantismo não era nada nova, mas Gregory pensava entender por que o mundo dos séculos XVIII e XIX havia definido e explorado o estilo com tanta acuidade, formando, assim, gerações de seres humanos sensíveis, que acreditavam inteiramente em si mesmo de um modo que nenhum ser humano ou vampiro acreditara antes. Entretanto, Gregory existira desde o começo da história humana registrada e também sabia muito bem que ‘almas românticas’ sempre haviam existido e representavam apenas uma espécie de alma dentre muitas . Em suma, sempre houve românticos, poetas, marginais, párias, aqueles que cantavam sobre a alienação, tendo uma palavra inteligente para isso ou não. O que dera à luz realmente o Romantismo como movimento na história das ideias humanas foi a afluência – um aumento no número de pessoas que tinham alimentos de sobra, instrução para ler e escrever e tempo para ruminar acerca de suas próprias emoções .” [ Príncipe Lestat, A...

Louis de Pointe du Lac

O desenvolvimento de um personagem ao longo de 40 anos... Louis apareceu pela primeira vez em 1976, com a publicação do primeiro volume das Crônicas Vampirescas, "Entrevista Com o Vampiro". Foi interpretado no cinema em 1994 por Brad Pitt ( Interview With The Vampire , de Neil Jordan). ---------- " O que de fato mudara? Ele aprendera mais uma vez (...) a viver noite após noite em um estado que se assemelhava à felicidade e a procurar a graça, mais uma vez nas óperas, sinfonias e nos corais, no esplendor das pinturas antigas e novas, e no simples milagre da vitalidade humana ao redor dele (...). Ele aprendera que sua velha teologia não lhe servia de nada e talvez sempre houvesse sido assim, um incurável cancro dentro dele muito mais do que uma fagulha que pudesse acender qualquer espécie de esperança ou fé. Entretanto, com o tempo, uma nova visão tomara conta dele, uma nova testemunha de algo que ele não conseguia mais negar. Sua mente não era mais teimosa e selada cont...

Manifesto a Favor dos Sonhos

Minha teoria sobre best sellers e blockbusters: eles dizem o que as pessoas precisam ouvir e por isso fazem tanto sucesso. Um exemplo é o nosso Paulo Coelho, que caiu no agrado do público numa fase new age em que cristais, duendes, fadas e bruxinhas causavam sensação no comércio e colocavam personagens de sonhos encantados como parte do dia-a-dia. Nunca achei Paulo Coelho um grande escritor, mas suas histórias são boas à medida que motivam a superar dificuldades diárias e lutar por nossa “lenda pessoal”. Por consequência, o autor é reconhecido e bem recompensado.  Num primeiro momento, para alguns, render-se às leis de mercado é algo condenável, considerando que um escritor seja um artista e que um artista, supostamente, coloca a liberdade e sinceridade de sua expressão mais íntima em primeiro lugar. Assim, a arte não poderia ser utilitária. Porém, as fronteiras nunca são claras e distintas. Ainda mais hoje em dia em que algozes e vítimas somos, ao mesmo tempo, todos nós....

Count Zero

E lá se foi Count Zero... Terminei. Não sei dizer quando começou a onda de trilogias na literatura (como se já não bastasse no cinema), mas acho pouco provável que ao publicar Neuromancer, há vinte e cinco anos, William Gibson tivesse em mente escrever continuações. Frequentemente, elas são escritas mais por razões mercadológicas do que propriamente artísticas.  De qualquer forma, Neuromancer e Count Zero são obras muito diferentes em suas estruturas. A primeira se constitui de narração contínua, que se apoia em sobreposições de estado de consciência, alternância de subjetividades focadas em espaços objetivos e virtuais. Desmembramentos e associações como eu nunca havia lido... Na época de sua publicação, espaço virtual era uma coisa bem pouco compreensível para os não iniciados em informática. Mesmo hoje, em época de inclusão digital mais avançada, correlações e implicações não são tão óbvias. Consequentemente, Neuromancer não é um texto fácil e deixa margem para especulações filo...

Count Zero II

"— Você está aqui, não está? — ela falou alto, acrescentando à ressonância do som as ondulações e reflexos de sua voz fragmentada. Sim, estou. — Wigan acha que você sempre esteve aqui, não é? Sim, mas não é verdade. Eu vim a existir, aqui. Antes eu não existia. Houve um tempo, um tempo brilhante, um tempo sem duração, em que também estava em todo lugar... Mas o tempo brilhante se partiu. O espelho era imperfeito. Agora eu sou apenas um... Mas tenho minha canção, e você a ouviu. Canto com essas coisas que flutuam em volta de mim, fragmentos da família que fomentou o meu nascimento. Há outros, mas eles não querem falar comigo. Vaidosos, os fragmentos espalhados de mim mesmo, como crianças. Como homens. Eles me mandam coisas novas, mas prefiro as coisas velhas. Talvez eu faça a vontade deles. Eles conspiram com homens, os meus outros eus, e os homens imaginam que eles sejam deuses... — É você o que Virek procura, não é? Não. Ele imagina que pode se traduzir, que pode codificar sua p...

Count Zero I

"Era um pouco como andar em uma montanha-russa que aleatoriamente entrasse e saísse da existência, em intervalos impossivelmente rápidos, mudando de altitude, ângulo e direção a cada pulso da inexistência. Exceto que os deslocamentos não tinham nada a ver com qualquer orientação física, mas sim com alternâncias instantâneas no sistema de símbolos e paradigmas. Aqueles dados nunca se destinaram ao acesso humano.  Com os olhos abertos, tirou o objeto do soquete e segurou-o na mão, lisa de suor. Era como acordar de um pesadelo. Não um horror, no qual os terrores internos assumiam formas simples e terríveis, mas o tipo de sonho infinitamente mais perturbador, em que tudo é perfeita e terrivelmente normal... e em que tudo está completamente errado. A intimidade da coisa era repulsiva. Lutou contra as ondas de transferência bruta, usando toda a sua vontade para aplacar um sentimento que se aproximava do amor: a ternura obsessiva que um observador vem a sentir pelo objeto de uma longa vi...

Neuromancer, de Willian Gibson (IV)

Depois de anos de voltas e revoltas em tentativas de ler o e-book de Neuromancer, topei com a versão impressa da editora Aleph na Biblioteca Aureliano Leite. Aí sim, devorei o textos em poucos dias e desisti de tentar ler e-books. Para mim livro é de papel ou nada feito. O simples virar de páginas é um ritual reconfortante e indispensável.   Neuromancer de Willian Gibson foi concluído em 1983. É uma das obras mais importantes de toda a ficção científica e em especial do subgênero chamado Cyberpunk . Deu origem a Johnny Mnemonic, o filme de 1995 com Keanu Reeves, e serviu de inspiração para a trilogia Matrix, lançada a partir de 1999 e também estrelada por Reeves. É o primeiro livro da chamada trilogia do Sprawl, que se completa com Count Zero e Mona Lisa Overdrive.  O grande mérito de Neuromancer é ter previsto boa parte das inovações científicas e tecnológicas surgidas nas últimas décadas, como biotecnologia, rede de computadores, realidade virtual, implantes cibernéticos e ...

Neuromancer, de Willian Gibson (III)

“— Ei, Case — ela disse, mal pronunciando as palavras. — Está escutando? Vou te contar uma história... — Ela se virou e inspecionou o corredor. — O nome dele era Johnny. (...) — Sabe, meu Johnny era um garoto muito inteligente, supersacado. Começou como armazenador em Memory Lane, tinha chips na cabeça e as pessoas pagavam para esconder dados ali. A Yak [Yakuza) estava atrás dele na noite em que a gente se conheceu, e eu matei o assassino deles. Foi mais sorte do que qualquer coisa, mas fiz aquilo por ele. E, depois disso, as coisas foram muito bonitas, Case. — Os lábios dela não se moviam. Ele a sentia formar as palavras; não a ouvia formá-las em voz alta." (p. 208) "— Nós tínhamos um esquema com um SQUID, para podermos ler os vestígios de tudo o que ele já havia armazenado na vida. Salvamos tudo aquilo em fita a e começamos a espremer clientes selecionados, ex-clientes. Eu cuidava da bagagem, da vigilância e da porrada. Eu era feliz de verdade. Você já foi feliz, Case? Ele ...

Neuromancer, de Willian Gibson (II)

“— Parece que é sim. Escuta, Dix, e me dê o benefício de seu background, ok? Armitage parece estar montando uma incursão em uma IA que pertence à Tessier-Ashpool. O mainframe fica em Berna, mas está linkado a outro no Rio. O Rio foi o que te deixou com linha morta daquela primeira vez. Então, parece que eles se linkam via Straylight, a base da T-A, lá no final do fuso, e a nossa missão deveria ser abrir caminho cortando com o ICE-Breaker chinês. Então, se Wintermute está bancando esse show todo, está nos pagando para queimá-lo. Ele está queimando a si mesmo. E alguma coisa que chama a si mesmo de Wintermute está tentando cair nas minhas graças, tentando fazer talvez com que eu pegue o Armitage. Qual é a parada? — Motivação — disse o constructo. — Problema verdadeiro de motivação em uma IA. Não é humana, entende? — Sim, claro, ora. — Não. Quero dizer, ela não é humana. E você não tem controle sobre ela. Eu também não sou humano, mas eu reajo como um. Entendeu? — Espera um segundo — d...

Neuromancer, de Willian Gibson (I)

“Na época, operava num barato quase permanente de adrenalina, subproduto da juventude e da proficiência, conectado num deck de ciberespaço customizado que projetava sua consciência desincorporada na alucinação consensual que era a matrix. Ladrão que trabalhava para outros ladrões, mais ricos, empregadores que forneciam o software exótico necessário para penetrar as muralhas brilhantes de sistemas corporativos, abrindo janelas para fartos campos de dados”. (p. 24) “ Danificaram seu sistema nervoso com uma micotoxina russa dos tempos da guerra. Amarrado a uma cama de um hotel em Memphis, seu talento queimando mícron a mícron, alucinou por trinta hora.  O estrago foi minucioso, sutil e profundamente eficiente. Para Case, que vivia até então na exultação sem corpo do ciberespaço, foi a Queda . Nos bares que frequentara no seu tempo de cowboy fodão, a postura da elite envolvia um certo desprezo suave pela carne . O corpo era carne. Case caiu na prisão da própria carne”. (p. 24) “Juliu...

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Eu nunca havia pensado que poderia sentir por um texto antigo a mesma sensação de observar uma foto antiga... Escrevi este texto há uns vinte e cinco anos, pelos menos. Estava no então chamado Colegial. Ele faz parte de um trabalho maior com biografia do autor, resumo do livro e outros tantos quesitos analíticos (no sentido leve do termo) pedidos pela professora de Literatura. E por ter ficado muito contente com o resultado, guardei as laudas, que foram datilografadas em máquina manual. Vira e mexe esbarro nelas ao colocar ordem nos meus arquivos. Ontem parei para ler e fiquei me perguntando que raios eu entendia por "discurso", "problema de identidade", "consciência de descontinuidade", etc., naquela época... Enfim, como eu sugeri no meu texto sobre a Valesca Popuzuda, às vezes a gente não sabe que sabe, mas já sabe... Segue meu velho texto com pretensões de análise crítica, tirado de folhas amareladas pelo tempo. Me fez pensar que de lá pra cá, em mim, s...

Valsa Negra

"O ódio é indistinguível do amor" - o verso de Catulo escolhido como epígrafe desta Valsa Negra já sugere a clave em que o romance deve ser lido: a do ciúme e da obsessão amorosa. Com uma trama ambientada no mundo da cultura erudita, Patrícia Melo abre novos caminhos em seu universo narrativo, enfocando a conturbada relação entre um maestro de prestígio e uma jovem violinista. "Otelo era portador desse mal. E José, da ópera Carmen. 'E Pozdnychev, lembra? Da Sonata Kreutzer? E para citar alguém de carne e osso, Freud. A vida da mulher dele era um inferno. Sabia que Frank Sinatra certa vez interrompeu um show para telefonar para Ava Gardner? Por quê? Porque estava doente. Uma doença física, como o câncer." (p. 152) Amor e ciúme e obsessão podem ser doenças físicas, como o câncer. . 

O Leitor

Sim, eu sei que O Leitor é um livro já meio antigo, que foi muito lido e até já foi filmado. Mas, eu ainda não havia lido nem assistido. E me surpreendi, pois é o melhor romance que já li em muito tempo... Frases curtas, parágrafos curtos, capítulos curtos que contam uma das histórias de amor mais delicadas e contundentes que li em qualquer época. São muitas as passagens belas que deverei reler tantas vezes quanto meu tempo de vida permitir. "O rosto não estava nem especialmente pacífico, nem especialmente agonizante. Parecia rígido e morto. Após olhá-lo por um bom tempo, o rosto vivo surgia no morto, o jovem no velho. É assim que deve acontecer em casais velhos, pensei; para ela, o homem jovem fica preservado no velho e, para ele, a beleza e o encanto da mulher jovem na velha. Por que eu não tinha visto aquela imagem na semana anterior?" SCHLINK, Bernhard. O Leitor. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 229. .

Feliz Por Nada

"É uma visão generosa da vida: imaginar que os não acontecimentos fizeram diferença, que você está onde está não só por causa das escolhas que fez, mas também por causa das especulações que nunca se confirmaram. Ao manter esse caráter desestressado, eliminamos a palavra derrota do nosso vocabulário e a alma fica mais aliviada, o que não é pouca coisa nesse mundo em que tanta gente parece pesar toneladas devido ao mau humor e ao pessimismo." MEDEIROS, Martha. Feliz Por Nada. Porto Alegre: L&PM, 2012, p. 83.

O Coração das Trevas - Joseph Conrad

"Um século transcorreu desde a primeira publicação em livro de O Coração das Trevas, um século de luzes ofuscantes e trevas infernais, de maravilhas da ciência e da técnica a serviço do homem e também da destruição de multidões, de prodígios nas artes, na política de povos e nações, na aventura humana, mas de espetáculos estarrecedores de loucura coletiva, de destruição em massa, de atrocidades extraordinárias. Na literatura, profundidades insondáveis da condição humana foram exploradas nos limites extremos do conhecimento e da imaginação por nomes glorificados de todos os continentes, cuja lista ficaria incompleta sem James Joyce, Thomas Mann, Bertold Brecht, Albert Camus, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, para citar apenas alguns. Com tudo isso, nos últimos cem anos, poucas obras tiveram o glorioso destino de ser o apanágio de sua época e um repertório de premonições como ocorreu com O Coração das Trevas de Joseph Conrad." .

Entre a Intenção e o Símbolo

Que não nos falte o tempo... .

Da Vida Retirada

Às vezes o melhor conselho está diante de nós, nos olhando de cima da estante... Obrigada, Sêneca! "Epicuro diz: 'O sábio não deve ter acesso a negócios públicos a não ser que seja obrigado'. Zenão fala: 'Exerça função pública, a não ser que haja algum empecilho'. Desta forma, um ordena, por princípio, a vida retirada, outro pressupõe para isso uma causa, mas o termo 'causa' tem sentido amplo. Se a república estiver tão corrompida que não possa ser ajudada, se estiver toda tomada pelo mal, o sábio irá dedicar-se ao não-realizável, empenhar-se para não conseguir nenhum resultado. Acrescente-se que, se tiver pouca autoridade ou pouca força, a própria república não irá aceitá-lo se a saúde o impedisse. Assim como não se lança ao mar um navio com casco danificado, nem se alistaria no exército quem estivesse debilitado, da mesma forma não se deve empreender uma caminhada para a qual se sabe não estar capacitado. Portanto, aquele com plena capacidade física, ante...

Onde?

Comecei a ler este livro por um único motivo: que o Luc Ferry me mostre onde está esse amor revolucionário todo nesta sociedade competitiva e violenta na qual vivemos. Oras, que eu saiba o Luc Ferry é filósofo e não escritor de livro de auto-ajuda. Vou ficar mais feliz se ele conseguir me convencer da validade de sua tese... Mas de cara ele já começa chamando de pessimistas o que eu considero realistas e, claro, mencionando Schopenhauer. Sei... .

Além

Eric Michael Packer, 28 anos, especulador financeiro. E rico. Tão rico a ponto de ser capaz de causar uma crise econômica sistêmica por conta própria.  "Os estrategistas não sabiam explicar a velocidade e a gravidade da queda. (...) Ele sabia que era o iene. Seus atos referentes ao iene estavam causando tempestades de desordens. Seu poder era tamanho, a carteira de títulos de sua firma era tão grande e ramificada, com vínculos cruciais com tantas atividades e tantas instituições centrais, todas reciprocamente vulneráveis, que a totalidade do sistema estava ameaçada."  (p. 112) Falado com sua guarda-costas, ele diz:  "- Que arma ele lhe deu? [o chefe de segurança] - Aparelho de choque. Ainda não confia em mim o bastante para me dar uma arma letal.  (...) Quantos volts você tem? - Cem Mil. Dá pane no sistema nervoso. (...) - Me dá um choque. Sério. Com a máquina. Quero que você me dê um choque, Kendra. Prá me mostrar como é. Estou querendo mais. Me mostre uma coisa que...

O Além do Homem - Cosmópolis I

Desde que eu me lembre, sempre estive impulsionada pela curiosidade. Sempre quis compreender como funciona este mundo em que vivo, como interagem as peças que o compõe, o que leva a sociedade a ser o que é e o que ela é. Afinal, o que sou eu e o outro? Com o tempo, fui adquirindo informações, assimilando perspectivas e novos conceitos, o vocabulário foi se tornando mais abrangente, o pensamento mais intrincado... Normal. É assim com qualquer ser humano em desenvolvimento. Mas, hoje estou num esforço de síntese. O que é pensamento? O que é Filosofia? Quais seus limites?   O que é possível conhecer e como se constitui o processo do conhecimento? Qual a real contribuição do pensamento filosófico para indivíduos e sociedade? Questões antigas para as quais as respostas devem ser individuais... Eu tenho as minhas, que talvez sejam provisórias. Minha questão máxima é: o que fazer com as respostas? Sei que Nietzsche diagnosticou a morte de Deus e Foucault detectou a morte do homem. São águ...