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Silence

“A vida é puro ruído entre dois silêncios abismais. Silêncio antes de nascer, silêncio após a morte.” ― Isabel Allende   Arte de Skripchenko Lyudmila Andreevna. .

Silêncio

E eu me calo. Vejo coisas que me agradam e me calo. Ouço coisas que me irritam e me calo... Tenho o sentimento de quem jogou palavras ao vento por tempo demais inutilmente. Inútil porque ninguém ouve. Inútil porque eu não me ouço enquanto grito.  Não sei quem disse que quando não soubermos mais o que nos faz feliz é só lembrar o que ficou para trás... Acho que foi Viktor Frankl, o homem que glorificou os sentidos... E olhei para trás... Mais do que voltar-se é preciso ser sincero sobre o que ficou lá trás (ou não ficou?). E é preciso ter boa memória para que o mau não pareça bom, para que o sonho não pareça real, para que possibilidades não se confundam com fatos. Para que fatos não sejam corrompidos pelo medo! Mas, olhei para trás...Senti que devia retornar ao âmago das coisa. Ao meu âmago das coisas. Quando não se pode ir adiante permanecer não é opção. O que estaciona morre. O retorno ainda é movimento. E foi lá atrás que encontrei os sentidos dos quais não me lembrava.  A ...

Entrevista Com o Vampiro

No final deste mês de abril Anne Rice estará lançando  o mais novo livro da sua série Crônicas Vampirescas, que volta a ser protagonizada pelo Vampiro Lestat, desaparecido da literatura há mais de uma década.  Meu texto para o versão cinematográfica do primeiro livro da série foi originalmente publicado no Cine Players, em agosto de 2008. E dizia...   "O mal é um ponto de vista (...)  Deus mata, assim como nós; indiscriminadamente. Ele toma o mais rico e o mais pobre, assim como nós;  pois nenhuma criatura sob os céus é como nós, nenhuma se parece tanto com Ele quanto nós mesmos, anjos negros não confinados aos parcos limites do inferno, mas perambulando por Sua terra e por todos os Seus reinos. " – Lestat de Lioncourt A origem mitológica dos vampiros perde-se no tempo. A crença nesses seres é universal, verificável nas civilizações mais primitivas e mais distantes entre si. Encontra-se documentada no Egito, na Mesopotâmia, na Grécia, em Roma, na China, na Améri...

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Eu nunca havia pensado que poderia sentir por um texto antigo a mesma sensação de observar uma foto antiga... Escrevi este texto há uns vinte e cinco anos, pelos menos. Estava no então chamado Colegial. Ele faz parte de um trabalho maior com biografia do autor, resumo do livro e outros tantos quesitos analíticos (no sentido leve do termo) pedidos pela professora de Literatura. E por ter ficado muito contente com o resultado, guardei as laudas, que foram datilografadas em máquina manual. Vira e mexe esbarro nelas ao colocar ordem nos meus arquivos. Ontem parei para ler e fiquei me perguntando que raios eu entendia por "discurso", "problema de identidade", "consciência de descontinuidade", etc., naquela época... Enfim, como eu sugeri no meu texto sobre a Valesca Popuzuda, às vezes a gente não sabe que sabe, mas já sabe... Segue meu velho texto com pretensões de análise crítica, tirado de folhas amareladas pelo tempo. Me fez pensar que de lá pra cá, em mim, s...

David Hume

Princípios acolhidos com base na confiança; consequências deles deduzidas de maneira defeituosa; falta de coerência entre as partes e evidência no todo – tudo isso pode-se encontrar nos sistemas dos mais eminentes filósofos, e parece cobrir de opróbrio a própria filosofia. (...) Não há nada que não seja objeto de discussão e sobre o qual os estudiosos não manifestem opiniões contrárias. A questão mais trivial não escapa à nossa controvérsia, e não somos capazes de produzir nenhuma certeza a respeito das mais importantes. Multiplicam-se as disputas, como se tudo fora incerto; e essas disputas são conduzidas de maneira mais acalorada, como se tudo fora certo. Em meio a todo esse alvoroço, não é a razão que conquista os louros, mas a eloquência ; e ninguém precisa ter receio de não encontrar seguidores para suas hipóteses, por mais extravagantes que elas sejam, se for hábil o bastante para pintá-las em cores atraentes.  David Hume (1711 - 1776), Tratado da Natureza Humana

Valesca, a polêmica

E eis que me vejo na obrigação de parar tudo para escrever o que penso a respeito da polêmica que estourou na semana passada sobre "a grande pensadora brasileira" Valesca Popozuda. Isto, para que minha opinião fique clara até para mim mesma. Pode ser que depois deste texto também a minha capacidade como “pensadora” seja questionada. Paciência! Em primeiro lugar, ao contrário dos colegas filósofos, ou seja, “pensadores”, o que me chamou a atenção não foi que um professor de filosofia colocasse uma questão de múltipla escolha sobre Valesca Popozuda numa avaliação (não é função da filosofia investigar conceitos e fenômenos?). Muito menos que o enunciado se referisse a ela como uma “grande pensadora” (e a ironia socrática?). O que me deixou um tanto quanto estarrecida foram os comentários debochados, de uma agressividade velada ou explícita e sempre cruel para com a moça em questão e, acima de tudo, superficiais quando vindos de quem se entende como pensador. Tal reação dos pe...

As Linhas Tortas

Em janeiro a Maia completou um ano. Em março fez um ano que ela está em casa. Minha mãe diz que desde que ela chegou todos os dias são como se fossem o primeiro dia dela aqui. Verdade! Paparicada, mimada, o centro das atenções, ela é sensível, alegre, doce, curiosa, ansiosa e meio desastrada. A minha “menininha”! Normalmente...  Ela, como todo filhote, tem a mania de morder e estraçalhar todas as coisas só para espalhar os pedaços pela casa. Dias atrás estava em vias de destruir mais um chinelo e minha mãe foi salvá-lo. A Maia travou os dentes no calçado e não havia quem o tirasse dela. Minha mãe pegou outro sapato, levantou ameaçadora com ares de “ou você solta ou apanha”. Pra quê? A pequenina perdeu as estribeiras, mostrou os caninos já bem crescidos e em fúria avançou contra a D. Maria. Isso nunca tinha acontecido de tal forma e nos assustou a ferocidade da “meninha”. Ao sentir-se ameaçada ela se defendeu instintivamente. Curioso é que ela nunca levou um tapa muito menos uma sa...

Mensagem na Garrafa, Ano 1, Número 2

A vida é uma grande pregadora de peças! E eu sempre incompetente em traduzí-la quando ela fala o que eu mais quero ouvir... Deveria eu me desculpar por não compreender se o preço que pago pelas lacunas que não preenchi é a sua ausência? Hoje despertei com sua voz sussurrando em meus ouvidos... Sim, sou dramática! Confecciono dramas e quis que você os transformasse em poesia, afastando a complexidade com sorrisos quando eu sozinha não pude... Teríamos rido e brincado a salvos do nada... Mas, somos crianças escondidas em adultos medrosos e só a vida brincalhona sorriu. E quando penso que você se foi percebo você em mim e eu sem saída que leve a você. Depois de sermos atropelados e separados no nascimento pela vida que jogava dados, não mais encontrei o caminho que leva a você... Ou ele ainda está diante de mim e eu não o vejo por medo de finalmente ter encontrado o fim para o qual tudo em mim converge? Permanecemos soltos no ar... Disfarço e sigo, sem dramas e sem rumo. (JP) .

Ao Desconhecido

De janeiro para cá li meia dúzia de livros, assisti a uns vinte filmes, escrevi um artigo e comecei mais quatro. Tenho mais uns vinte livros para ler urgentemente, não sei quantos filmes, documentários, álbuns e gravações de shows me esperando. Não sou uma viciada em Internet, mas sou uma curiosa de nascença e uma viciada em informação por tabela. Por qual meio a informação me chega não importa, contanto que chegue. Saí algumas vezes. Vi a exposição do Sebastião Salgado e vaguei com a Tereza pela cidade. Fomos a sorveterias, padarias, restaurantes, shoppings. E cada vez menos escrevo nos blogs... Não porque não tenha sobre o que escrever, mas porque há muitas e muitas ideais voando pela minha cabeça o tempo todo.  Também tenho ouvido muitos prognósticos pessimistas sobre o excesso de informação e sobre os males que isso nos causa. A humanidade estaria fadada ao individualismo, à solidão, ao niilismo. Estaríamos todos em vias de nos tornarmos autômatos atropelados pelo tempo e neg...

As Ideias e os Egos

A Internet chegou aqui em casa em algum mês do ano 2000. Na época era uma exigência profissional, pois eu começava a me aventurar no universo dos autônomos e a rede já despontava como uma possibilidade de atuar em um mercado não apenas local. Porém, ser autônomo em ambiente virtual é uma coisa solitária. Não tem a pausa para o cafezinho no meio do expediente e o bate-papo que sempre surge em escritórios. Para suprir tal lacuna foi natural me inserir em ambientes de bate-papo virtual.  Os fóruns entraram na minha vida anos antes de alguém ouvir falar em Orkut. Aliás, antes mesmo do MSN e na época do ICQ. Era um tempo em que os internautas usavam avatar e pseudônimo e as discussões, muitas vezes, eram longas e interessantíssimas. E eu gostava muito, pois geralmente me ajudavam a organizar meus próprios pensamentos sobre temas quaisquer! Hoje em dia, em Facebook, entrar em discussão e divergir é o caminho mais curto para ser deletado.  Naquela época, normal era que as pessoas d...

Esquerda X Direita: o nobre e o ressentido

Texto: Helena Novais Em 29.11.2013 Por um bom tempo entre as mensagens e material visualizados por mim em facebook predominaram os compartilhados por simpatizantes de esquerda, conhecidos e amigos vinculados a movimentos sociais e vários educadores populares, seguidores dos ensinamentos do filósofo e pedagogo Paulo Freire. Provavelmente por conta dos desdobramentos dos movimentos de junho, este pessoal tornou-se mais silencioso. Creio que estejam por demais ocupados com as atividades práticas exigidas pela educação popular neste momento histórico tão importante.  Ultimamente, a orientação se inverteu e os simpatizantes de direita têm se manifestado mais. Na verdade, eles parecem estar gritando bastante... E eu achei até interessante prestar atenção ao que eles dizem. Apesar de não ter nenhuma simpatia pela direita, entendo que meu papel como filósofa – que é o que eu tenho me esforçado para ser –, não é exatamente defender esta ou aquela tendência, mas antes tomar conta...

Superfícies

Texto: Helena Novais Em 05.09.2013 Dia desses acordei de manhã, preparei meu café e fui tomá-lo no quintal, aproveitando o solzinho que despontava. Distraidamente, olhei pro lado e vi pequenas ramagens que cresciam entre o piso e o muro. Pareciam arvorezinha em miniatura... Num flash me veio a imagem de pessoinhas andando entre aquelas coisinhas verdes e por instantes me vi transportada para uma época remota da minha vida, época em que eu desenhava pessoinhas no papel, as coloria, recortava e criava para elas pequenas historinhas, pequenos universos... Eu as colocava dentro de pequenas casinhas, construídas por mim com pequenos pedaços de tijolos, madeiras e outros materiais. Ali aquelas pessoinhas “viviam”. Eu era o Deus que as fazia existir e ordenava seus dias. Na minha cabecinha infantil a vida delas era linda e perfeita. Eu devia ter uns 5, 6 anos, talvez menos... Naquela manhã, ao retornar do meu déjà vu me surgiu a questão: será que Deus também faz isso com a gente? Nos...

Batman, Lucius Fox e A Vigilância das Telecomunicações

Texto: Helena Novais Em 15.07.2013 Dia 17 de julho de 2008 foi o dia da estreia nacional de Batman, o Cavaleiro das Trevas. Eu o assisti no dia seguinte, num sábado pela manhã. Foi uma das experiências mais impactantes que eu já tive com cinema.Talvez a mais impactante. Na época eu escrevia para o site Cine Players e a expectativa pelo desempenho do filme era alta. Não decepcionou. E foi recorde de bilheteria. Todos os colaboradores queriam publicar suas resenhas sobre o filme e elas foram aparecendo no site aos poucos. Eu, impaciente, aguardava a publicação do meu texto que foi um dos últimos a ser apresentado aos leitores, pois eu não havia avisado que o assistiria. Tudo bem! Modéstia à parte, o meu texto foi o melhor! Não, isso não é uma demonstração explícita de arrogância. Foi o melhor para mim, porque na época era o que expressava mais perfeitamente o meu deslumbramento com o filme. Conseguir se expressar de forma satisfatória em texto é muito difícil, mas na época fique...

Wikileaks e o Esclarecimento: um processo

Texto: Helena Novais Em 09.07.2013 “E, de repente, você é chocado com a percepção aterrorizante e repentina: a realidade não é o que parece... no universo de Dick, você não pode confiar em nada. Não só as figuras de autoridade mentiram para você - a própria realidade está mentindo para você. Mas por mais paranóica que seja, a visão de Dick não é desesperadora. Na decadência entrópica há sempre esperança; no absurdo encontramos humor e redenção nas abilidades super-humanas das pessoas comuns que lidam com circunstâncias extraordinárias. Nós podemos conseguir. Podemos não triunfar heroicamente (quem consegue uma coisa dessas?), mas, caramba, vamos sobreviver. Humanos sobreviverão por tanto tempo quanto conseguirem manter sua humanidade, diz Dick, e a medida da humanidade é sua capacidade de se importar.” (1) Durante toda a minha vida me encantei com pessoas bem educadas, gentis, sinceramente e desinteressadamente preocupadas com o próximo, acolhedoras, calorosas, serenamente ale...

Brasil, a Grampolândia Internacional

Texto: Helena Novais Em 08.07.2013 A definição desta feita foi usada pelo senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) e cai como uma luva: “grampolândia internacional”! A imprensa brasileira está noticiando que os nossos governantes estão perplexos e indignados com as denuncias de vigilância das nossas telecomunicações pelos Estados Unidos... Eu estou perplexa e indignada com a perplexidade dos responsáveis pelas comunicações e segurança deste país! Então, estamos ingenuamente à mercê e nossos governantes foram totalmente pegos de surpresa? Bem, somos um país que não consegue bloqueador sinais de celulares em penitenciais, o que esperar?!  Também estou perplexa e indignada com o nosso Ministro das Relações Exteriores, que além de ignorar um pedido de asilo, colocando o Brasil numa situação vergonhosa diante da comunidade latino americana, ainda se coloca a elogiar a “disposição ao diálogo” de Thomas Shannon, o diplomata norte-americano, como se ele não fizesse mais do que a o...

Snowden e as Provas Sobre a Vigilância do Brasil

Texto: Helena Novais Em 07.07.2013 Dias atrás eu conversava com um amigo sobre o meu estado de letargia. Falava da minha saudade de viver a vida apaixonadamente, com o coração cheio de esperanças como na época da minha adolescência. Coisas que me moviam antigamente, agora têm sobre mim um efeito "morno". Tudo tem cara de "já vi esse filme antes". E me convencer a fazer qualquer coisa tem sido um problema sério. Esse desgaste me veio muito, ou totalmente, em função das minhas decepções com as pessoas. Bem poucos, raríssimo, estão preocupados com algo que não seja o próprio umbigo. Porém, a "mornidão" não é um estado que combina com um intelectual. Desde o começo dos meus estudos em Filosofia digo que os livros não bastam, que é necessário viver, e viver intensamente, para ter perspectivas autênticas, conclusões pessoais e íntimas. Então, é necessário que eu volte a me apaixonar por algo. Mas, o que poderia ter sobre mim um efeito tão forte? ...

Turbulência

Texto: Helena Novais Em 04.07.2013 A minha alma inquieta está profundamente abalada pela turbulência que sacode as sociedades de todo o mundo. Não posso me livrar da impressão de estarmos, todos, numa encruzilhada, num momento derradeiro que decidirá a sobrevivência da própria humanidade. Mas, de alguma forma, aos poucos, também estou me adaptando ao papel que cabe aos intelectuais: estudar, observar serenamente, experienciar, analisar, diagnosticar, escrever, discutir, fazer o possível para esclarecer expondo pontos de vista. Como resultado dos meus estudos, observações e experiências, estou acreditando, por exemplo, que Julian Assange não exagera quando diz que a Internet é uma ameaça à humanidade. Esta entendida como homens e mulheres permeados por subjetividade própria, por valores, sentimentos e tudo o mais que define almas de homens e mulheres (olha Foucault aí!).  Nas minhas divagações estou comparando o lado negro das tecnologias da informação à indústria ...